A Edição 134 (Abril de 2008) da Revista Caros Amigos traz uma excelente entrevista de Miguel Nicolelis à (clique aqui para baixar em PDF).
Em tom bastante coloquial (aliás, próprio de Nicolelis), a entrevista revela, além da sua ciência, traços biográficos do grande cientista. Confira os trechos abaixo:
Deus
"Tenho uma ótima relação com Deus: ele não acredita em mim e eu não acredito nele."
Experimentalista
"Se Freud aparecesse hoje numa convenção, seria um 'neurocientista computacional', um formulador de teorias ou de hipóteses que gente como eu, experimentalista, ia levantar e falar 'muito bonito, mas cadê o dado?'"
Vocação científica
"O [Colégio] Bandeirantes tinha laboratórios raros. Você podia fazer alguma coisa que não estava no script. Aí percebi que ciência é o melhor emprego que existe, pagam você para ser moleque, experimentar, se divertir. (...)
"Entrei na faculdade para ser neurocirurgião e descobri que era mais ou menos trabalhar com encanamento o resto da vida – coisa fundamental, quando você quiser um neurocirurgião, o cara tem que ser bom, mas não era pra mim. Percebi que era possível fazer o que fazia no Bandeirantes profissionalmente."
Brasil
"Se você passar duas semanas no interior do Rio Grande do Norte, da Paraíba, é outro Brasil. A gente respira aquele país que, quando eu era criança, me diziam que nunca seria possível se fazer. [Nesse momento Nicolelis chora] E é chocante, você só consegue falar sobre isso fora daqui. O Brasil, de certa maneira, carrega hoje a responsabilidade de ser uma das poucas boas esperanças no mundo. De preservar seu ambiente, construir um país honesto, que cresça não à custa de outro, mas à custa do seu próprio trabalho, um país que tem uma democracia explodindo, não? Eu coloquei na minha porta na Universidade de Duke: 95 milhões de votos contados em quatro horas. Qualquer semelhança é pura coincidência. Eu me tornei mais brasileiro vivendo fora daqui. E acho inconcebível que nossas crianças cresçam sem apreciar a diferença entre patriotismo barato e verdadeiro amor pelo Brasil. Têm direito ao acesso à informação legítima, honesta e limpa. Para saber que país é, quais são os problemas, mas quais são as maravilhas do Brasil... [chora novamente]. Tem duas piadas que me deixam possesso. Uma é quando alguém fala, aqui, que 'isto é coisa de primeiro mundo'. Que primeiro mundo? E a segunda é que 'Deus criou esse maravilhoso país, mas deixa ver o povinho que vou pôr lá'. É o ranço do coronelismo. É inserir no genoma nacional o complexo de inferioridade. O Santos Dumont não pensou que não era do primeiro mundo quando voou, não pensou no 'povinho', ele foi e fez."
(...)
"Vi um economista argentino falar bem do Brasil. Chorando, emocionado, 'é um exemplo, é um país que está dando um show'".
Ciência
"Ciência é hoje uma questão de soberania nacional, uma questão estratégica da humanidade e uma contribuinte vital para a preservação da democracia no mundo. Porque se não ajudar a produzir comida, novas formas de energia, de curar doenças, a espécie acaba. A ciência está no vértice das decisões."
Educação científica
"Mostrei as crianças montando robô, usando telescópio, medindo lua de Júpiter. Em Macaíba, na periferia de Natal. Foi um choque. Mas só fora daqui saiu nos jornais, saiu na Scientific American, na Science, na Nature, nas grandes revistas do mundo."
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